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Foi num domingo, numa tarde de Inverno, mas com um sol de Primavera, que a Família Pinto Eliseu recebeu acolhedoramente o Family Building em sua casa.

Reunimo-nos então na sala com os Pais e os dois filhos. A Mãe Luísa, de 40 anos, o Pai Bernardo, com 41, o filho mais velho, de 18, o António que quer ser veterinário e o Francisco, de 8, o que quer ser campeão de corrida de carros, aviões, bicicletas e trotinetas.

A conversa começa muito naturalmente, entre risos e alguma emoção, com os Pais a contarem-nos que este ano fazem 25 anos de namoro e que já se casaram duas vezes um com o outro.

Luísa – Então… foi há 25 anos… Eu tinha 15 anos e o Bernardo 16! Costumávamos ir todos os verões para São Martinho do Porto com as nossas famílias. Houve um verão que um primo dele começou a namorar com uma amiga minha, e queria por força arranjar-me um namorado que fosse primo dele. Então apresentou-me aos primos todos a ver qual deles é que eu poderia achar graça. E eu não achei graça a nenhum (risos). Mas depois houve uma noite em que o Bernardo lá me conseguiu dar a volta, e pronto… conquistou-me (a família solta toda uma grande gargalhada).

Bernardo – … depois de muita conversa lá consegui! (risos).

Family Building – E o que é que vocês têm a dizer da forma como os vossos pais começaram a namorar, António e Francisco?

António – Como é que é possível?! Porque tenho 18 anos e nunca aconteceu algo parecido.

Luísa – Duas histórias não se repetem e são raros os casos de namoros que começaram na adolescência perduraram. Só conhecemos um caso, para além de nós.

Francisco – Acho estranho…

Luísa – Tivemos um namoro com muitos altos e baixos, acabávamos, mas depois voltávamos sempre.

Bernardo – … o normal!

Luísa – Sim, era normal. Éramos miúdos! Depois lá estabilizámos uns tempos e antes de engravidar do António, passei por uma fase muito complicada – perdi o meu pai. Nessa altura nunca mais me lembrei de tomar a pílula, e aconteceu…

Family Building – Como te sentes a ouvir esta história, António?

António – É muito estranho. Imaginar que daqui a 3 anos eu também poderia ter um filho, não consigo imaginar (risos).

Luísa – Claro que na altura foi um choque. Éramos uns miúdos com 21 e 22 anos, estávamos a acabar o curso, eu em Design de Interiores e o Bernardo em Marketing. Eu consegui acabar, ainda cheguei a ir às aulas com o António, mas o Bernardo não…

Bernardo – Eu não consegui acabar. Tive que começar a trabalhar, arranjei 3 empregos e estudava à noite. Alguma coisa teve que ficar para trás… Foi bastante desafiante! De um momento para o outro, tens que te fazer à vida e já não tens tempo para pensar, nem para escolher.

Luísa – … pensávamos que não tínhamos condições para ter uma criança e foi aqui que as nossas mães tiveram um papel fundamental, deram-nos o maior apoio. Tivemos que ficar em casa da minha mãe a viver por uns tempos.

Bernardo – O mais importante de tudo, é que temos os dois, famílias grandes e unidas que sempre nos ajudaram muito.

Luísa – Para nós, a nossa base, são as nossas famílias. São os nossos maiores exemplos. Sempre foram todos muito unidos e andam em bloco para todo o lado, tanto do meu lado, como do Bernardo. E nós também somos assim. Damos sempre prioridade a uma jantarada com a família do que a outra coisa qualquer.

António – Eu vejo muitas histórias de amigos meus em que têm 3 ou 4 pessoas de cada lado e mesmo assim é raro estarem juntos. Vêem-se uma vez por ano. Enquanto nós, fazemos jantares de Eliseus todas as quartas-feiras e passamos os verões sempre todos juntos. É algo que eu sinto, em comparação com os meus amigos, é que tenho um grande apoio na minha família.

Family Building – Vocês parecem, de facto, uma família muito unida. Para onde vai um, vão todos?

Todos – Sim! Completamente!!

FB – E essa união sempre foi assim, desde o início?

Bernardo – Como casal, tivemos umas alturas mais baixas que outras, mas sempre estivemos juntos um para o outro.

Luísa – E acho que a coisa tem vindo a ser construída, ou seja, ao início houve ali momentos difíceis, obviamente. Éramos muito novos. Mas as coisas acabaram por ir sendo construídas e houve cedências que tivemos que fazer e continuamos a fazer. Tivemos que nos adaptar um ao outro e a tudo. E vimos que, o que o que queremos de facto, da nossa vida é isto. Viver para os nossos meninos “mái” lindos (risos).

FB – Gostariam de falar agora das duas uniões mais oficiais?

Luísa – Quando nós engravidámos, a minha mãe disse logo que podíamos ficar lá em casa, mas fazia questão que fôssemos casados. E eu pedi o Bernardo em casamento (risos!) e casámos pelo civil 15 dias antes do António nascer. Depois o António nasceu e tivemos mais tempo para organizar o casamento pela igreja. Quando ele tinha 7 meses, casámos novamente com o batizado do António ao mesmo tempo.

Bernardo – E eu só lhe dei o anel de noivado no copo de água, no dia do casamento pela igreja. Fizemos tudo ao contrário.

 

Segundo casamento do Bernardo e da Luísa, no mesmo dia do baptizado do António

FB – Sabemos que todos nós enfrentamos variados desafios ao longo da vida. Quais foram os maiores desafios que a vossa família enfrentou? Como lidaram com eles?

Luísa – Um dos grandes desafios foi a doença da minha mãe, cancro da mama. Foram dois anos muito complicados na nossa vida porque a minha mãe sempre foi o nosso pilar. Quando partiu, assim como aconteceu com o meu pai, engravidámos do Francisco. No fundo os nossos filhos vieram preencher os vazios que os meus pais deixaram… Outro grande desafio, foi quando eu tive uma trombose, há 5 anos. Estive internada e quando saí, uma das ordens médicas era andar. Eu, naquela altura, odiava mexer-me e para me motivar a fazer exercício, inscrevi toda a família num ginásio. Assim não tinha hipótese de arranjar desculpas para não ir.

FB – Sentem que esta foi uma forma de ajudarem a mãe a ultrapassar este desafio?

Bernardo – Sem dúvida! Nós no início tivemos que fazer muita força para a ajudar. Era eu e o António sempre a puxar por ela e a “chateá-la” para ir. Nos dias em que inventava as piores desculpas para não ir, nós não desistíamos enquanto ela não fosse. Além disso, desde que estamos no ginásio, os nossos níveis de stress desceram para metade!

Luísa – A minha trombose, afinal, foi uma coisa boa. Apesar de tudo, acabou por ser positivo!

Família Eliseu no ginásio

 

FB – Falámos agora de grandes desafios que a vossa família enfrentou. E que desafios mais pequenos enfrentam no vosso do dia-a-dia?

Luísa – Humm, diria o saber respeitar o feitio de cada um de nós, que é bastante complicado. Tirando o António, que é quem tem o melhor feitio de nós todos. Por exemplo, o Francisco, quando as coisas não lhe correm bem, fica muito frustrado, desiste facilmente e irrita-se.

António – Sim, lembro-me que noutro dia estávamos a jogar na playstation e ele ficou irritado, a dizer que o que ele estava a construir não estava tão bem, como o que eu estava a fazer. E eu disse-lhe que qualquer maneira que ele faça, está bem feito, que o dele era bonito à mesma, pois foi pensado e feito por ele. E isso é o mais importante!

Bernardo – Talvez o maior desafio seja eu e a Luísa termos tempo só para nós. A nossa vida não permite que isso aconteça muito.

Luísa – … mas de vez em quando lá temos as nossas escapadelas (risos).

Bernardo – É um desafio! Às vezes, lá arranjamos um fim-de-semanazinho só para os dois ou um jantar.

António – …ou muitas vezes, sou eu a dizer: “Vão sair à noite com os amigos, que eu fico com o Francisco!”

Luísa – O António é literalmente o segundo pai do Francisco. O mais possível. Já que eles têm diferença de 10 anos…

Francisco – 9 anos, 9 meses e 7 dias! (risos)

Luísa – O António desde sempre lhe mudou a fralda, dá banho, de comer, ajuda-o a estudar, brincam, conversam muito. Por isso, desde muito cedo, que temos confiança para deixar o Francisco em casa com o António sozinhos. Hoje em dia, quando queremos sair à noite, negociamos com o António qual o dia em que ele sai e o que pode ficar com o Francisco. E assim conseguimos arranjar um meio-termo para todos.

FB – Sentimos que é transversal a muitos cuidadores a dificuldade que sentem em gerir o tempo e energia entre trabalho e casa. Temos observado que muitas vezes, quem fica com a maior parte das tarefas domésticas é, ainda, a mulher.  Quem gere essas coisas cá em casa?

Bernardo – Sim, aqui quem manda é claramente a Luísa!

Luísa – Quem gere as contas da casa sou eu, mas a nível de arrumações e cozinhar é tudo completamente dividido.

FB – E como dividem?

Luísa – O Bernardo faz sempre muito mais do que eu. Vou ser a mais sincera do mundo. Ele de manhã estende a roupa, faz uma máquina, enquanto eu fico a dormir mais meia hora. Mas dividimos muita coisa. Eu faço a faxina, ele passa a ferro…

FB – Isto irá ser, certamente, uma grande inspiração para muito Pais…

Luísa – Sim, o Bernardo é o marido exemplar. Não existem muitos maridos assim. Este é meu! (gargalhadas).

Bernardo – Nós sempre percebemos que se não formos os dois a fazer as coisas cá em casa, nada funciona.

Luísa – Sim, não pode ser só um a fazer! E também nos vamos adaptando. Por exemplo, durante a semana, enquanto um está no ginásio, eu vou com o António, o outro fica em casa a tratar das coisas da casa: a fazer o jantar, a arrumar coisas e a estudar com o Francisco. No sábado vai a família pipoca toda para o ginásio. Nós conciliamos muito bem os nossos horários. Temos a nossa vida muito bem arrumadinha!

Bernardo – É muito raro termos um fim-de semana em que ficamos em casa a vegetar. O último acho que foi há mais de 6 meses. Temos sempre qualquer coisa para fazer!

FB – Já vimos que vocês têm muita energia. Estão sempre no verbo Ir… E tu, Francisco, o que achas destes programas em família?

Francisco – Gosto muito, mas gostava de ser mais crescido para pegar em pesos como os pais e o mano. Só faço natação…

FB – E durante a semana conseguem ter tempo de qualidade entre todos?

António – Todas as noites, acabamos os quatro aqui na sala a ver televisão. Às vezes, até posso estar no computador a falar com os meus amigos no Skype, mas desligo quando chega a hora de virmos para aqui, para estarmos todos juntos. Temos também todas as sextas-feiras, que fazemos sempre um jantar especial para os 4, com mais tempo à mesa para conviver.

Luísa – A semana passa tão a correr, que temos que aproveitar todos estes bocadinhos!

FB – Bernardo, o que é, para si, ser pai?

Bernardo – É a razão. Por exemplo, o António com 18 anos sabe que quer ir para Veterinária. Eu quando era novo não sabia o que queria, até vir o António. Antes não pensava nisso, não tinha um propósito bem definido, até a primeira vez que o vi. Ser pai é isto. É a grande justificação para estarmos aqui na Terra, é para isso que vivemos e lutamos. É o sentido da vida, autenticamente. Isso é ser pai. Eles ensinaram-me tudo!

FB – E para si Luísa, o que é ser mãe?

Luísa – O que eu sinto por estes dois é assim uma coisa enorme, que não cabe cá dentro. É um amor, uma paixão gigante (emociona-se). Eu todos os dias quando vou dar beijinhos aos meus filhos fico a cheirá-los meia hora. É o meu instinto materno.

António – Eu quando vou para a cama, não consigo adormecer completamente sem a mãe ir lá ao quarto dar-me um beijinho. Ou ao contrário, quando volto de sair com os meus amigos, tenho que ir sempre ao quarto dos pais dar um beijinho à mãe. É uma grande ligação que tenho.

FB – E ao pai?

António – Ao pai também, também dou sempre! O pai é mais para brincar, mas mesmo assim não dispenso. Por exemplo, agora fiz 18 anos, muita gente me dizia que para os meus anos eu devia pedir dinheiro para a carta. Eu disse que para mim isso era secundário, eu queria era dinheiro para poder saltar de para-quedas com o meu pai. É muito simbólico para mim dar o salto com o meu pai no início da minha vida adulta. Quero que esteja lá o meu pai a acompanhar-me.

FB – E o que é para ti ser filho?

António – Ui, não sei mesmo responder a isso. É difícil. Eu sinto muito que tenho os olhos postos sobre mim. Não só dos pais, mas da família toda. Sinto a obrigação de continuar a subir e a ser melhor. Faz-me sentir ótimo, mas com algum medo de os desiludir. Apesar de saber que se os desiludir, os meus pais vão lá estar para mim da mesma maneira.

Luísa – Claro que sim! Nós somos exigentes com ele porque gostávamos que ele fosse longe em termos profissionais. Eu não tive essa oportunidade. Os meus pais nunca se preocuparam muito em saber como estavam a correr os meus estudos. Nós tentamos contrariar isso estando mais presentes.

FB – Gostarias de ser pai um dia, António?

António – Sim, muito!

FB – E o que achas que vais transmitir aos teus filhos?

António – Exatamente tudo aquilo que eu tenho vindo a ter desde sempre. Não há nada que eu diga que quero ser diferente. Vou repetir exatamente os mesmos passos que os meus pais, porque não há nada que esteja errado (a mãe emociona-se).

Plasticina que o António fez quando era pequenino, da forma como via a sua família.

Plasticina que o António fez quando era     pequenino, da forma como via a sua família.

 

FB – Esta entrevista está a ser emocionante… E tu Francisco, o que gostas mais nesta família?

Francisco – Tudo! Brincar com o mano, dar miminhos à mãe, saltar para cima do pai e jogar na televisão com o mano.

FB – E o que é, para cada um de vocês, ser família?

Bernardo – Eu vivi sempre num seio de família muito grande. Sempre fomos um clã. E apesar das confusões todas, eu nunca fui educado só pelos meus pais. Fui educado também pelos meus avós, tios… Portanto, para mim o conceito de família é isto. É uma união, é um conjunto. É o gostarmos de estar juntos e querermos estar mais tempo juntos.

Luísa – No fundo, sermos amigos, acima de tudo. Sabermos que podemos sempre contar uns com os outros. O podermos falar sempre e encontrarmos uma solução. Acho que família é aquilo que nós somos.

António – E família não tem que ser só de sangue. São também todas aquelas pessoas que nos rodeiam e que são imprescindíveis e nos apoiam em tudo. Os amigos, para mim, também são família. Eu todos os dias chego à escola e digo: “Bom dia família!” em alto e bom som para o grupo todo.

Francisco – É tudo! É amizade, paixão e carinho.

Desenho do Francisco, da forma como vê a sua família.

Desenho do Francisco, da forma como vê a sua família.

Que palavras tão boas e que exemplo tão bom do que é ser família! Muito obrigada aos quatro por nos contarem a sua história e por nos deixarem mostrar a todas as pessoas como cada família é família à sua maneira.

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